INT. SALA DE ESTAR - PRIMEIRAS HORAS DO DIA
DONA ROSA, 64, olha pelas frestas da persiana, desesperada.
DAVI, 68, está de braços cruzados, apreensivo, mas
surpreendentemente calmo. Rói as unhas.
DONA ROSA
(chorando)
Pelo amor de Deus, Davi! O que é que a
gente vai fazer?
DAVI
Calma, Rosa! A gente não vai fazer
nada. Calma.
DONA ROSA
Calma? Como calma? Tem um.
DAVI
Não grita! Tu vai acordar a Amanda.
Dona Rosa segura o choro tampando a boca, olhando para o
interior da casa. Faz-se um longo silêncio.
DONA ROSA
Eu não queria, Davi... eu não
queria... era só pra dar uma dura
nele! Ele falou que qualquer coisa era
só ligar, eu nunca imaginei...!
Davi acolhe Rosa em um abraço.
DAVI
Você fez certo, Rosa. Deixa que eles
se resolvam do jeito que eles acharem
melhor! A lei deles não é a mesma da
nossa.
DONA ROSA
Uma pizza, Davi! Tudo isso por causa
de uma pizza!
DAVI
Ladrão é ladrão. Ele quis se meter com
gente de bem e pagou o preço.
DONA ROSA
Por quê, meu Deus? Ele devia saber que
não pode mexer com ninguém daqui da
vila, que o cara não quer encrenca na
porta de casa.
Dona Rosa espia pela persiana mais uma vez.
DONA ROSA (CONT'D)
Eu vou chamar a polícia.
DAVI
E tu vai dizer o quê? Se descobrirem
que foi tu que ligou pro cara, o quê
cê acha que vai acontecer contigo?
DONA ROSA
Daqui a pouco o povo do morro vai
começar a descer pra trabalhar, Davi!
As crianças! As crianças vão começar a
descer pra ir pro colégio! Elas não
podem.
DAVI
Fodam-se, Rosa! Tu é síndica só até a
escadaria. Depois dela, é terra de
ninguém. Essa gente não é nosso
problema.
Tu acha que eles não tão acostumados?
Que eles não vêem isso todo dia lá em
cima?
DONA ROSA
Crianças, Davi...
DAVI
É tudo bicho. Vai ter pena de bicho?
Tudo marginal. Você passa a mão na
cabeça agora e daqui a uns anos ele
mete uma faca no teu lombo e te rouba.
Silêncio. Rosa encara Davi e vai se acalmando, convencida por
suas palavras.
DONA ROSA
Tá certo. Cê tá certo. Mas o quê que a
gente faz então?
DAVI
Daqui a pouco algum vizinho vai na
janela e vai ver isso. A polícia vai
limpar tudo e vai ficar por isso
mesmo. E a gente não se mete. Tu já
fez a sua parte.
DONA ROSA
(Mais controlada)
Você vê o que acabou de acontecer
aqui, né?
DAVI
Tu acabou de se tornar a mulher mais
poderosa da Rua dos Araújos.
Tu vai proteger todas essas famílias
dessa gente, Rosa.
Ouvem passos de alguém descendo as escadas apressadamente,
parando bruscamente com um suspiro de espanto. Rosa toma a
mão de Davi, agitada. Os passos retomam, agora um pouco mais
lentos em sua descida, seguindo seu caminho até sumirem.
DAVI (CONT'D)
Não falei? Tão acostumados.
Rosa espia pela persiana. Davi senta no sofá da sala. Após
alguns momentos, o telefone toca. Silêncio. Davi vai atender,
mas Rosa toma o telefone dele.
DONA ROSA
(segura de si)
Alô?
Silêncio na linha.
O CARA
Recebeu meu pacote?
DONA ROSA
Não abri não, mas recebi. Precisava
disso?
O CARA
Ei, foi tu que me ligou pra mim
resolver a parada. Não gostou de como
eu trato neguinho que não me obedece,
esquece esse número. E tá reclamando
do quê? Bandido bom é bandido morto,
né não?
DONA ROSA
Contanto que não seja você.
O CARA
Contanto que não seja eu. Vai dormir,
daqui a pouco os homi tão tudo aí e
você não vai conseguir pregar o olho.
O Cara desliga o telefone. Dona Rosa põe seu aparelho no
gancho e pega Davi pela mão, conduzindo-o até o quarto. O
ponto de vista permanece na sala, fechando na janela até
atravessá-la, chegando na escadaria.
EXT. ESCADARIA - MANHÃ
O LADRÃO DE PIZZA, 20, está esparramado na escada com um tiro
na cabeça, mãos e pés amarrados, completamente nu, exceto por
um cartaz feito de papelão e barbante pendurado em seu
pescoço, onde se lê: "LADRÃO de PÍTIZA"
FADE TO BLACK.
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