quarta-feira, 29 de abril de 2015

ensaio #02


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COMPOSIÇÃO #01

A partitura criada no último ensaio ----
Mineirinho, de Clarisse Lispector ----
 Um ou treze tiros ----
O que você tem vontade de fazer no palco? De dizer? ----


>>> MEMÓRIA <<< >>> IMAGINAÇÃO <<< >>> ATUALIDADE <<<

Aqui, impulso e intuição são essenciais.

Para compor, é necessário negociar

Uma negociação do ator com seu desejo, com seu pensamento e com o programa a ser seguido. Negociar até encontrar o sumo e transformar esse tanto de referência em algo útil à sua [à nossa] vontade. Em “The View Points Book”, Anne Bogart diz que a Composição é um método para revelar para nós mesmos nossos pensamentos e sentimentos ocultos a respeito do material.

Pablo Picasso disse uma vez que “fazer arte é uma nova forma de escrever um diário”.


Pois então,
as escritas são múltiplas e como resultado:

Composições distintas. Cinco tentativas de dar conta do impossível.
Um quebra cabeça de corpos-memória-colonizados-desejantes.

como representar, no teatro, o mundo em que vivemos?

essa pergunta ecoa em mim e ressoa nas composições.

Vou puxar da memória e tentar dar conta das composições em algumas palavras. Tentando deixar de lado os conceitos teatrais e me colocando somente como espectador, como receptor. Trabalhando escuta, percepção e escrita.

Tudo o que segue é fragmento e/ou possibilidade poética.


André.
Há dias em que o passado me acorda e não posso desvivê-lo¹. Tenho 30 anos. Esfrego os olhos tentando desanuviar a manhã que embaça o dia¹. Já tenho 30 anos. Deixo a cama carregado pelos fados de ontem.¹ 30 anos. Daqui, o que vejo é um círculo de bolas de soprar esvaziando-se lentamente. Espécie de ampulheta. Divido o mundo vivido do mundo sonhado com a nitidez da loucura¹. Lá se foram 30 anos ou dez mil novecentos e cinquenta dias. O tempo passa, impiedoso. O homem é só metade. Eu sou só metade. As bolas esvaziam-se.  Lentamente. Gradualmente.  [Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia para a felicidade ². Pouco a pouco, num grito mudo e/ou ao som Dream a Little Dream of Me, o homem se desfazia]. O presente é a soma de nostalgias, agora irremediáveis. A memória suporta o passado por reinventá-lo incansavelmente. Meu real é mais absurdo que minha fantasia¹. Meu corpo e minha arma esvaziam-se. Um tiro certeiro. Final. 

1 – fragmentos --- Vermelho Amargo de Bartolomeu Campos de Queirós.
2 – fragmento --- O Filho de mil homens de Valter Hugo Mãe.


Rúbia.
Preto. É tudo preto. Escuro. Dois refletores são acesos na potência máxima. Dois corpos no espaço. Não vejo rostos. Ouço choques. Ouço gritos. Gritos mudos. [Ímã --- qualidade daquilo que atrai; peça de aço magnetizado que tem a propriedade de atrair o ferro e alguns outros metais]. Os corpos estão distantes, não há toque. O oprimido atrai o opressor. A opressão atrai o olhar do espectador. Assisto, atônito, a evolução dos corpos no espaço. Um frio que congela. Um corpo, em cena, expele suor. O outro, sons. A invasão da privacidade me atrai. Podem, os olhares, devorar os corpos. Isso me excita. Reconheci-me. Tive tempo. Busquei um verbo para descrever. Procurei no dicionário verbo a verbo e tinha-os usado todos, menos o verbo morrer. Preferi repetir o matar a ir ao encontro do ineditismo contido no verbo morrer. E quando todos já tinham uma ideia feita de mim, causei-lhes, sem querer, surpresa. Um tiro. Invisível. Me vi, portanto, morto. Morto de sonhos. Morto de esperanças. Mas, vivo. Não mais acredito em nada. Lembra do teatro? Que sentido tem?


Ricardo.
Começamos no fim, um tiro. Tiro de madeira na madeira. Tiro, a queima roupa, da realidade sobre os sonhos. [respiração] Olha aí a carne carregada por um corpo-humano. [respiração e suor] Olha aí o corpo-humano esfaqueando feito doido a carne morta, vermelha, sanguínea. O manejo da faca sobre a carne é certeiro, como se degolasse cada um de nós. Corpo-humano desesperado, medroso. [falta ar] Um carregador é ligado ao tecido muscular – vulgarmente chamado de coração, mas que é, na verdade, só um pedaço de alcatra. Choque. Confundo  meu-corpo e o corpo-alcatra-energizado. [falta batimento cardíaco]
A partir daqui, eu sou o outro. Eu sou a alcatra. Também eu sou o corpo-humano-desesperado que esfaqueia. [o coração para] Desfibrilador. Um aparelho que emite uma descarga elétrica para corrigir a fibrilação ventricular e fazer o coração bater novamente no ritmo adequado para bombear o sangue. [descarga elétrica 01] Tentativa de fazer acordar o já morto. [descarga elétrica 02] Um choque na realidade. [descarga elétrica 03] Sim, eu morri! Sou carne morta em exposição. Um corpo num caixão ou numa vala qualquer. Cru. Sangrado. Velado. Vedado. Amputado. Impotente. Mas quem aqui se importa? ........................  Metáfora? Alegoria? Representação? O que há de gente em nós? O que há de real em nós?

Grasi.
 Papel em branco. Onírico. “desconheço o ruído que interrompeu meu sono naquela noite. Amparado pela janela, debruçado no meio do escuro, contemplei a rua e sofri imprecisa saudade do mundo” ¹ <RUPTURA - ou tiro> Seco. Cai o plano. Tá lá mais um corpo estendido no chão! Uma criança. Um menino de cinco anos. A caneta explode sobre o papel. Papel manchado de vermelho. Um atravessamento. Real. Não ficção. O corpo sufocado - ou morto – do artista transborda em tentativas poéticas de representação do fato. “Então logo se fez, mais uma vez, a roda. A roda de gente na rua. Teve foto, teve curioso, teve TV e teve a Mãe. Teve o que merecia, disse os olhos do cidadão, que ao contrario de Antônio, se matava assim, de dentro pra fora. Agora, a formiga desvia do corpo miúdo e faz força pra passar. Muita gente, muito peso, muito mundo”. MUNDO MUDO. A trilha sonora, inaudível, se chama BIFE.

1 – fragmento --- Vermelho Amargo de Bartolomeu Campos de Queirós.

Luiza.
13 barulhos. 13 tiros. 11 minutos de composição. O tempo aqui é inimigo. Afinal, como dar conta de toda a angústia contida em 13 tiros? Não quero falar sobre. Não quero desorganizar. Mas falo. Preciso. Ensino minha partitura pra alguém. Pra me ver no outro, espelhada. Eu sou o outro. Eu quero ser o outro. [pausa] Desisto, resolvo falar outra coisa. Autorreflexão? [micro pausa] Ouçam o tiro que vai me matar. Meu corpo está aqui, no cantinho, mas eu não me responsabilizo. Os ouvidos, os olhos, as mãos, os órgãos, são de vocês! Vocês escolhem o que ouvir! Vocês escolhem o que ver! Vocês escolhem o que sentir e escolhem se levam o meu corpo daqui ou não! Não, isso não é um convite! Eu não me responsabilizo. [pausa longa] Vocês escolheram me carregar até a sala! Vocês! É por sua conta e risco! [tempo lento para o cortejo] Meu corpo é velado pelo Augusto Boal. Ele foi diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta brasileiro, uma das grandes figuras do teatro contemporâneo internacional. Não fui eu quem disse isso. Foi o wikipedia. Eu não me responsabilizo. “a gente não quer a uniformização das pessoas, a gente quer a unificação”. Ele – o Augusto - que disse isso no meu velório. Eu não me responsabilizo. Prefiro não opinar. Prefiro não compreender. Prefiro não me comprometer. Depois de treze tiros, estou morta. E mortos não devem opinar.



Cartografia da sala de ensaio >>>
                                         >>> Coletiva, movente, inacabada. É meio, é caminho, não fim.


Reverberar o real. Deixar de falar sobre politica e ser politica. Até quando nos manteremos em cinismo? A realidade não é natural. É preciso desnaturalizar as relações. Encontrar novas realidades possíveis. Novas possibilidades poéticas. Buscar uma realidade no palco quase mais real que a própria realidade.
Somos gente à procura de palavras e discursos; corpos em busca de voz e de transformação do espaço social.


01 DESEJO: CONTAR UMA HISTÓRIA.
01 PERGUNTA: COMO EXPLODIR ISSO TUDO EM PERSONAGENS, EM SITUAÇÕES?
OUTRA PERGUNTA: COMO NÃO TER UMA ABORDAGEM INGÊNUA EM RELAÇÃO A ISSO TUDO?


Os personagens dessa história ainda são desconhecidos. O que se sabe – ou, pelo menos, o que se deseja – é que podem refletir qualquer um de nós: indivíduos desejantes que tem como única posse material o seu corpo – bestial, colonizado, preenchido de memória, de preconceitos, de crueldade, de beleza e horror.


epígrafe ---

“utopia ou não? ninguém se entende. gosto mais de quem acredita no impossível e, por isso, não precisa de utopias. mas os descrentes mandam no mundo. raios partam”.

 valter hugo mãe em postagem no Facebook (22/04/2015) ---




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ensaio #02 -------------------------
sala do elevador - CBAE ou CEU
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andré locatelli, davi palmeira, dominique arantes,
grasiela müller, luiza rangel, ricardo cabral, rubia rodrigues.



--- davi. 



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