segunda-feira, 4 de maio de 2015

ensaio #03




--- escrita em jogo


   Uma mulher dorme. No meio da noite uma sirene toca. Ela, que acreditava que sua missão era tomar conta do mundo, constatou que mal podia cuidar de suas próprias pernas e de seu futuro Manuel. Cambaleante, levanta-se da cama e segue para o banheiro, onde se encara no espelho. Chora, com um rosto neutro. Um homem esquálido e um estrondoso ruído invadem o espaço. A jovem corre em direção ao sótão contendo suas lágrimas. Ao chegar, pega um tecido escuro e aperta sua barriga. Outra sirene toca e ela tenta proteger Manuel apertando com ainda mais força o pedaço de pano sobre o corpo. Entre sirenes e passos na madeira velha, sons do quotidiano daquela cidadela áspera, o único ruído que passava por sua cabeça era de sua própria respiração.

    Corre em direção ao corredor, vai até a varanda , encosta seu dedo no metal frio do gatilho. Não podia aguentar mais nenhum minuto aquela sufocante sensação de não saber mais quem era. No instante seguinte, seus olhos encontram os do homem. Ela volta atrás.

    “Lana, me ajuda... me leva para o solo 3 e fica comigo lá. Eles vão chegar logo”, disse Miguel segurando-se enfraquecido na mulher. Num rompante, ela arremessa o corpo de Miguel contra o parapeito da varanda e a noite é entrecortada por outra sirene. Ela levanta a arma e aponta para o corpo desesperado de Miguel.  Aperta o gatilho; aperta o gatilho e, mais uma última vez, aperta o gatilho. Três sons secos para a possível esperança de uma solução. Três tiros para o ar. Por falta de coragem, pediu ajuda.  Quem sabe uma sirene não parava em sua porta? Gritando do parapeito, os olhos vermelhos e a garganta em chamas, Lana viu no contraste do frio da noite e do calor da arma um vislumbre de esperança. Sentia-se útil pela primeira vez em muito tempo.

Continua...

por andré locatelli, davi palmeira, grasiela müller,
mika makino, ricardo cabral, rubia rodrigues.


ensaio #03 -------------------------
sala do elevador - CBAE ou CEU
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