segunda-feira, 11 de maio de 2015

Relato selvagem – Luiza




Tem certas coisas que um pai não deveria contar ao filho, simplesmente porque determinadas conversas acontecem sem palavra.  Escutar aquilo da boca do próprio pai seria estranho demais, seria um vômito ao contrário.  O rapaz já aparentava seus 27 anos, o pai 56. No entanto, descobriu-se que talvez eles não se parecessem em nada. Descobriu-se que, talvez, os seus olhos não fossem feitos da mesma íris, nem as lágrimas do mesmo gosto salgado, nem o sangue da mesma cor.  

Mas, o rapaz vivia a vida inteira a escutar dos parentes: "- seu gênio é igual do pai!" Então por que a sensação de não pertencer?  No fundo do coração a nenhuma, a vazia e a murcha vontade de dizer que sentia “saudade”, coexistindo com a terrível, a desesperadora, a tenebrosa dificuldade de pensar na ausência do pai, seja por motivo de morte ou de doença. E o choro agudo, então, quando descobriu que o pai estava a beirar a morte? Isso tudo coexistindo.

Estar dentro de uma família há 27 anos e passar a se indagar o tempo todo se aquele avô – pai do seu pai – pode ser simplesmente um amigo muito querido, ancião, que te emprestou o nome de "vô" - sem o ser, na falta de um. Todo mundo vira amigo. A memória das tias dando banho de mangueira no quintal, sim, podem provocar a pausa: "- na verdade. as amigas da minha mãe. É."


O pai também não tinha certeza e os dois apenas trocaram sensações pelo ar. A fala se interrompeu para dar lugar a uma decisão sem palavra: a de não saber, nunca mais, quem é que era amigo ou quem é que era sangue.

 Eis que tudo isso coexiste, já não importa falar. xii.

Nenhum comentário:

Postar um comentário