Tem certas coisas que um pai não deveria contar ao filho,
simplesmente porque determinadas conversas acontecem sem palavra. Escutar aquilo da boca do próprio pai seria
estranho demais, seria um vômito ao contrário.
O rapaz já aparentava seus 27 anos, o pai 56. No entanto, descobriu-se
que talvez eles não se parecessem em nada. Descobriu-se que, talvez, os seus
olhos não fossem feitos da mesma íris, nem as lágrimas do mesmo gosto salgado,
nem o sangue da mesma cor.
Mas, o rapaz
vivia a vida inteira a escutar dos parentes: "- seu gênio é igual do pai!" Então
por que a sensação de não pertencer? No
fundo do coração a nenhuma, a vazia e a murcha vontade de dizer que sentia
“saudade”, coexistindo com a terrível, a desesperadora, a tenebrosa dificuldade
de pensar na ausência do pai, seja por motivo de morte ou de doença. E o choro
agudo, então, quando descobriu que o pai estava a beirar a morte? Isso tudo
coexistindo.
Estar dentro de uma família há 27 anos e passar a se indagar
o tempo todo se aquele avô – pai do seu pai – pode ser simplesmente um amigo
muito querido, ancião, que te emprestou o nome de "vô" - sem o ser, na falta de
um. Todo mundo vira amigo. A memória das tias dando banho de
mangueira no quintal, sim, podem provocar a pausa: "- na verdade. as amigas da
minha mãe. É."
O pai também não tinha certeza e os dois apenas trocaram
sensações pelo ar. A fala se interrompeu para dar lugar a uma decisão sem palavra: a de não
saber, nunca mais, quem é que era amigo ou quem é que era sangue.
Eis que tudo
isso coexiste, já não importa falar. xii.
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