quarta-feira, 8 de julho de 2015

ATOR-BRICOLEUR --- Por Flávio Souza

ATOR-BRICOLEUR ---
Por Flávio Souza

O bricoleur é um conceito apresentado pelo antropólogo belga Lévi-Strauss, em seu livro “O pensamento selvagem” (1989), onde afirma que :


O Bricoleur está apto a executar um grande número de tarefas diversificadas porém, ao contrário do engenheiro, não subordina nenhuma delas à obtenção de matérias-primas e de utensílios concebidos e procurados na medida de seu projeto: seu universo instrumental é fechado, e a regra do seu jogo é sempre arranjar-se com os “meios-limites”, isto é, um conjunto sempre finito de materiais bastante heteróclitos. (LÉVI-STRAUSS, 1989: 33)

Trabalhar com a bricolagem pressupõe produzir um objeto novo a partir de fragmentos de outros objetos, no qual se podem perceber as partes ou pedaços dos objetos anteriores. A ideia de que “isso sempre pode servir”, de selecionar, de destacar do resto aquilo que meu imaginário já elabora inicialmente de alguma forma, percorre a prática da bricolagem. Agregamos a esta prática o exercício de desenvolver “maneiras de lidar com”, desmontar, recompor. Caracteriza-se, assim, o bricoleur como aquele capaz de adaptar e de utilizar no seu trabalho quaisquer materiais encontrados, assimilando, re-elaborando e propondo que determinado material sirva na construção de outra categoria de objeto.
Mesmo estimulado por seu projeto, seu primeiro passo prático é retrospectivo, ele deve voltar para um conjunto já constituído, formado por utensílios e materiais, fazer ou refazer seu inventário, enfim sobretudo entabular uma espécie de diálogo com ele, para listar, antes de escolher entre elas, as respostas possíveis que o conjunto pode oferecer ao problema colocado. Ele interroga todos esses objetos heteróclitos que constituem seu tesouro, a fim de compreender o cada um deles poderia significar. (LÉVI-STRAUSS, 1989: 34)

O conceito de bricolagem comporta intrinsecamente uma operação lúdica. O artista que trabalha consciente da tarefa da bricolagem deve estar conectado com seu interior, ser apto a responder prontamente e apropriar-se do que lhe foi dado, gerando um novo produto, uma produção artística calcada na experiência pessoal. O produto gerado pelo bricoleur de alguma forma mostra um pouco do que é o artista, pois o objeto criado é uma forma de comunicação com o mundo, expondo seu universo lúdico, seu imaginário e sua capacidade de articular discursos distintos.

A arte se insere a meio caminho entre o conhecimento científico e o pensamento mítico ou mágico, pois todo mundo sabe que o artista tem, ao mesmo tempo, algo do cientista e do bricoleur: com meios artesanais ele elabora um objeto material que também é um objeto de conhecimento. (LÉVI-STRAUSS, 1989: 38).


O “ator-bricoleur” agiria, portanto, como um artesão que, se apropriando e transformando o material que chega até ele em expressão teatral profundamente ligada com sua natureza, é também capaz de responder aos estímulos a partir de seu inventário pessoal e elaborar algo novo a partir de vários materiais distintos. O ator não abandona sua formação, sua história pessoal, sua memória nem as analogias possíveis que o estímulo dado lhe provoca. Tecnicamente, a busca seria por uma capacidade de resposta imediata do corpo e dos procedimentos técnicos disponíveis de cada um: a prática do improviso, do jogo e da contracenação. O “ator-bricoleur” desenvolve o seu discurso sem compromisso com uma unidade totalizadora, nem com a elaboração de uma narrativa linear.
O corpo do ator pode ser considerado aqui também como amálgama dos diversos materiais a serem combinados para formar a obra. O que podemos destacar então como material nesse caso? Matteo Bonfitto (2002) elabora o conceito de material, a partir de Aristóteles, entendendo que:

(...) o que causa a transformação da matéria em material é justamente a aquisição, por parte da matéria, de uma função que contribui para a construção da identidade do objeto do qual é parte constitutiva. Portanto, por material pode-se entender qualquer elemento que adquire uma função no processo de construção da identidade do próprio objeto. (BONFITTO, 2002: 17)

O bricoleur pode perceber nas coisas ao seu redor tudo o que potencialmente venha a se tornar material para o seu trabalho. O ator-bricoleur igualmente entende o que pode se tornar material para a construção do seu trabalho artístico. Desenvolve a capacidade de dar uma função para determinado aspecto do seu trabalho, de modo que ele faça parte da própria identidade do trabalho artístico produzido. O corpo do ator se torna, então, como Patrice Pavis (2005: 139) coloca, o amálgama dessa justaposição, dessa mistura, dessa junção, dessa colagem de materiais diversos. O ator deve então compreender que a articulação do trinômio espaço/tempo/ação é a chave principal para se tomar a bricolagem como procedimento artístico.
Refletindo sobre procedimentos técnicos de trabalho, destaco então alguns elementos estruturantes da prática da bricolagem. Seriam eles: relação com o inventário pessoal, a apropriação, relação com o fragmento e a desconstrução e composição.

A relação com o inventário pessoal designa, a meu ver, algo além da relação do artista com a memória. A ideia de inventário pessoal abarca a relação do artista com todo o seu instrumental técnico adquirido ao longo do tempo, sua maneira de entender e perceber as coisas ao seu redor, a sua visão sobre o material a ser trabalhado, sua compreensão e também seu memória, seu passado e sua relação com ele. Lèvi-Strauss (1989) aponta que o primeiro contato do bricoleur diante de um projeto é uma atitude retrospectiva, uma volta a todo o seu arsenal e potencial de criação um contato direto com sua natureza criadora e criativa. A criação se daria no campo da percepção de como o material afeta o artista, que pontos em seu inventário são despertados e estimulados a desenvolver uma relação criativa e produtiva.


Fragmentar também é uma forma de organizar a cena onde podemos confrontar e ressaltar particularidades e significados do texto ou do tema. No trabalho do ator, a fragmentação pode ser um desafio técnico onde se passa com uma ruptura de uma coisa para a outra. Isso exige uma consciência daquilo que se deve fazer concretamente, quais ações e a elaboração física da cena. Exige uma consciência mais ampla, onde é preciso entender a criação a partir do que a justaposição dos fragmentos pode significar; a bricolagem pode ser aqui compreendida como o resultado final dessa colocação de um fragmento ao lado do outro.

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