ATOR-BRICOLEUR ---
Por Flávio Souza
O bricoleur
é um conceito apresentado pelo antropólogo belga Lévi-Strauss, em seu livro
“O pensamento selvagem” (1989), onde afirma que :
O Bricoleur está
apto a executar um grande número de tarefas diversificadas porém, ao contrário
do engenheiro, não subordina nenhuma delas à obtenção de matérias-primas e de
utensílios concebidos e procurados na medida de seu projeto: seu universo
instrumental é fechado, e a regra do seu jogo é sempre arranjar-se com os
“meios-limites”, isto é, um conjunto sempre finito de materiais bastante
heteróclitos. (LÉVI-STRAUSS,
1989: 33)
Trabalhar com a bricolagem pressupõe
produzir um objeto novo a partir de fragmentos de outros objetos, no qual se
podem perceber as partes ou pedaços dos objetos anteriores. A ideia de que
“isso sempre pode servir”, de selecionar, de destacar do resto aquilo que meu
imaginário já elabora inicialmente de alguma forma, percorre a prática da
bricolagem. Agregamos a esta prática o exercício de desenvolver “maneiras de
lidar com”, desmontar, recompor. Caracteriza-se, assim, o bricoleur como
aquele capaz de adaptar e de utilizar no seu trabalho quaisquer materiais
encontrados, assimilando, re-elaborando e propondo que determinado material
sirva na construção de outra categoria de objeto.
Mesmo estimulado por
seu projeto, seu primeiro passo prático é retrospectivo, ele deve voltar para
um conjunto já constituído, formado por utensílios e materiais, fazer ou
refazer seu inventário, enfim sobretudo entabular uma espécie de diálogo com
ele, para listar, antes de escolher entre elas, as respostas possíveis que o
conjunto pode oferecer ao problema colocado. Ele interroga todos esses objetos
heteróclitos que constituem seu tesouro, a fim de compreender o cada um deles
poderia significar. (LÉVI-STRAUSS,
1989: 34)
O conceito
de bricolagem comporta intrinsecamente uma operação lúdica. O artista que
trabalha consciente da tarefa da bricolagem deve estar conectado com seu
interior, ser apto a responder prontamente e apropriar-se do que lhe foi dado,
gerando um novo produto, uma produção artística calcada na experiência pessoal.
O produto gerado pelo bricoleur de alguma forma mostra um pouco do que é
o artista, pois o objeto criado é uma forma de comunicação com o mundo, expondo
seu universo lúdico, seu imaginário e sua capacidade de articular discursos
distintos.
A arte se insere a
meio caminho entre o conhecimento científico e o pensamento mítico ou mágico,
pois todo mundo sabe que o artista tem, ao mesmo tempo, algo do cientista e do
bricoleur: com meios artesanais ele elabora um objeto material que também é um
objeto de conhecimento. (LÉVI-STRAUSS, 1989: 38).
O “ator-bricoleur” agiria,
portanto, como um artesão que, se apropriando e transformando o material que
chega até ele em expressão teatral profundamente ligada com sua natureza, é
também capaz de responder aos estímulos a partir de seu inventário pessoal e
elaborar algo novo a partir de vários materiais distintos. O ator não abandona
sua formação, sua história pessoal, sua memória nem as analogias possíveis que
o estímulo dado lhe provoca. Tecnicamente, a busca seria por uma capacidade de
resposta imediata do corpo e dos procedimentos técnicos disponíveis de cada um:
a prática do improviso, do jogo e da contracenação. O “ator-bricoleur”
desenvolve o seu discurso sem compromisso com uma unidade totalizadora, nem com
a elaboração de uma narrativa linear.
O corpo do
ator pode ser considerado aqui também como amálgama dos diversos materiais a
serem combinados para formar a obra. O que podemos destacar então como material
nesse caso? Matteo Bonfitto (2002) elabora o conceito de material, a partir de
Aristóteles, entendendo que:
(...) o que causa a transformação da matéria
em material é justamente a aquisição, por parte da matéria, de uma função que
contribui para a construção da identidade do objeto do qual é parte
constitutiva. Portanto, por material pode-se entender qualquer elemento que
adquire uma função no processo de construção da identidade do próprio objeto. (BONFITTO, 2002: 17)
O bricoleur pode perceber nas
coisas ao seu redor tudo o que potencialmente venha a se tornar material para o
seu trabalho. O ator-bricoleur igualmente entende o que pode se tornar
material para a construção do seu trabalho artístico. Desenvolve a capacidade
de dar uma função para determinado aspecto do seu trabalho, de modo que ele
faça parte da própria identidade do trabalho artístico produzido. O corpo do
ator se torna, então, como Patrice Pavis (2005: 139) coloca, o amálgama dessa
justaposição, dessa mistura, dessa junção, dessa colagem de materiais diversos.
O ator deve então compreender que a articulação do trinômio espaço/tempo/ação é
a chave principal para se tomar a bricolagem como procedimento artístico.
Refletindo sobre procedimentos técnicos de
trabalho, destaco então alguns elementos estruturantes da prática da
bricolagem. Seriam eles: relação com o inventário pessoal, a apropriação,
relação com o fragmento e a desconstrução e composição.
A relação com o inventário pessoal
designa, a meu ver, algo além da relação do artista com a memória. A ideia de
inventário pessoal abarca a relação do artista com todo o seu instrumental
técnico adquirido ao longo do tempo, sua maneira de entender e perceber as
coisas ao seu redor, a sua visão sobre o material a ser trabalhado, sua
compreensão e também seu memória, seu passado e sua relação com ele.
Lèvi-Strauss (1989) aponta que o primeiro contato do bricoleur diante de
um projeto é uma atitude retrospectiva, uma volta a todo o seu arsenal e
potencial de criação um contato direto com sua natureza criadora e criativa. A
criação se daria no campo da percepção de como o material afeta o artista, que
pontos em seu inventário são despertados e estimulados a desenvolver uma relação
criativa e produtiva.
Fragmentar também é uma forma de
organizar a cena onde podemos confrontar e ressaltar particularidades e
significados do texto ou do tema. No trabalho do ator, a fragmentação pode ser
um desafio técnico onde se passa com uma ruptura de uma coisa para a outra.
Isso exige uma consciência daquilo que se deve fazer concretamente, quais ações
e a elaboração física da cena. Exige uma consciência mais ampla, onde é preciso
entender a criação a partir do que a justaposição dos fragmentos pode
significar; a bricolagem pode ser aqui compreendida como o resultado final
dessa colocação de um fragmento ao lado do outro.
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