segunda-feira, 29 de junho de 2015
sai daqui e não volta sem o meu filho.
Tony assiste televisão enquanto se desmilingue no sofá. Renne entra. Tenta consertá-la; ela se desmilingue. Conserta-desmilingue, conserta-desmilingue, conserta-desmilingue. Tony se desvencilha dele (por que?), se recompõe e vai em direção ao quarto de Noah. Ele não está. Volta exasperada: "Renne, o Noah não tá no quarto, Renne. O Noah não tá no quarto dele." Ele tenta detê-la. "A gente precisa fazer alguma coisa, Renne". Ele diz que o filho está no colégio, ao que ela se tranquiliza. Tudo bem, então. Podemos aproveitar para acertar os planos da festa de aniversário intergalática. "Eu vou precisar conseguir uma fantasia de ET que caiba em você! Imagina, Renne, eu e você vestidos de ET?" E precisamos também pensar nos balões verdes, e nas bebidas. "Não dá pra ter só whisky, Renne!" E aqueles copinhos de marciano que ela viu no Centro, que são caros mas que o Noah vai ficar doido. Renne continua embarcando, até que Tony diz (provoca?) que vai buscar o filho no colégio, assim eles podem conversar os três. É isso. Ele não deixa, se interpõe no caminho e pergunta dos remédios. "Eu não quero remédio, Renne. Eles não dão conta." Seca e certeira, mas a secura não vem de descaso; pelo contrário: vem de uma objetividade carregada de uma absoluta necessidade. "Eu quero o meu filho, Renne. Eu-quero-enterrar-o-meu-filho. Eu nunca te perguntei, Renne, onde você tava, que horas você ia voltar, o que você tava fazendo. Mas agora eu quero saber, Renne. Agora eu preciso saber." Renne murmura algum pedido infame de desculpas, enquanto seu corpo se desfaz em direção ao chão. É o ápice da inversão de papeis, de uma crueldade que a alimenta. "Vem, Noah, vem ver seu pai caído no chão. Você não consegue nem chorar, Renne. Chora, chora que eu quero ver." Recompõe-se, mas agora é diferente. É para si mesmo. Ela disse o que precisava. Volta à televisão.
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